terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Investir na bolsa

Investir na bolsa é como andar de bicicleta


Você já viu um adulto que não sabe andar de bicicleta? Sem jeito, com medo de se machucar, desconfiado. A relação dele com a bicicleta lembra muito a do brasileiro médio com o mercado acionário. Investir na bolsa exige prática, conhecimento e alguma habilidade.
Quanto mais cedo se entende o mundo da renda variável, melhor, tal como ocorre com a bicicleta. O brasileiro, porém, sempre preferiu a ‘bike’ com rodinhas representadas pela liquidez diária e pelos juros elevados das aplicações conservadoras. Mas esse conforto acabou. É hora de aprender a pedalar como adulto. A boa notícia é que o momento nunca esteve tão propício para se começar a entender este novo universo.

O Brasil ainda desconhece o mercado acionário. Embora sejamos o 5º PIB do mundo, em número de companhias listadas na Bolsa estamos na 17ª posição, segundo a World Federation of Exchanges (WFE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Se pelo lado da oferta de ativos o Brasil faz feio perante os demais países, em termos de investimentos, a situação não é diferente. Embora a indústria de fundos brasileira seja a 5ª e a 6ª colocadas em número de fundos mútuos e de ativos sob gestão, respectivamente, os valores aplicados em renda variável representam apenas 9% do total, enquanto no mundo alcançam 40%, segundo dados do Investment Company Institute (ICI) e da Moody’s. O número de pessoas físicas cadastradas na BM&FBovespa alcançou 587 mil em dezembro, mas, de acordo com algumas corretoras, o número de investidores ativos estaria em torno de 140 mil. Considerando que cerca de 25 milhões de pessoas declararam Imposto de Renda em 2012, o número de investidores de bolsa atinge meros 0,6% do universo de pessoas com alguma renda. E olha que nem estou comparando com a população total. O antigo Maracanã absorvia com folga todos estes acionistas.

O interessante é que as condições atuais são propícias para o desenvolvimento do nosso mercado acionário. O cultuado investidor americano Benjamin Graham gostava de comparar a rentabilidade dos títulos públicos com o retorno derivado dos dividendos. Quando as rentabilidades dos dois ativos se aproximavam, o investimento em Bolsa se tornava mais atrativo. No seu clássico livro “O Investidor Inteligente”, ele compara as décadas de 40 e 70 nos Estados Unidos. Com o aumento da inflação na década de 70, os títulos públicos rendiam 7,19% no início de 1972 comparado a um retorno das ações industriais de 2,76%. Com isso, ele estava pessimista com o desempenho da bolsa americana na ocasião. Vivemos esta situação de juros altos por muito tempo e sabemos como ela é nefasta para o desenvolvimento do mercado acionário. Por outro lado, no fim da década de 40, o cenário era outro. As obrigações do Tesouro rendiam 2,66% e as ações, 6,82%. Por esta métrica, a situação brasileira atual é benéfica para a bolsa. Os juros do título público NTN-B principal com vencimento em maio de 2015 alcançavam 4,76% em fevereiro de 2011. Hoje o mesmo título paga prêmio de 2,19%, o que é inferior ao dividendo proporcionado pelas ações que compõe o Ibovespa – 2,35%. Acredito que, hoje, a possibilidade de uma nova queda dos juros que afetaria positivamente a NTN-B é menor do que a chance de uma apreciação das ações brasileiras. Calculei o ‘dividend yield’ do Ibovespa aplicando um percentual de 25% sobre a razão do lucro antes de impostos e o valor de mercado da bolsa. 

valor obtido como retorno de dividendos pode ser considerado conservador por dois motivos: (i) leva em conta como ‘pay-out’ (parcela do lucro destinada aos dividendos) o dividendo mínimo obrigatório da maioria das companhias brasileiras, logo algumas poderão pagar mais do que 25% e (ii) o cálculo é fortemente impactado pelas ações da Petrobras, que não têm figurado na lista das melhores pagadoras de dividendos.




Mas não é apenas nos ‘yields’ que o cenário americano do fim da década de 40 lembra o Brasil de hoje. Veja este trecho do livro de outro investidor americano, Philip Fisher: “mudanças que tornam o mercado de 1950 bastante diferente (...) Durante os anos 20, os corretores da bolsa somente tinham clientes ricos e em número reduzido. (...) Muitas coisas aconteceram para modificar os mercados (...) O número de pobres diminui a cada ano. Todos os anos nota-se um aumento da classe média, fato que provocou um crescimento ainda maior dos pequenos compradores. Junto com eles aconteceu um crescimento extraordinário em outra classe de compradores, o comprador institucional.” Bem, em termos demográficos estamos parecidos com os EUA de 1950. Contudo, apesar das mudanças estruturais, nossa bolsa permanece semelhante ao mercado acionário americano de 1920 descrito por Fisher. Cabe às corretoras e gestoras ensinarem a esta massa de novos aplicadores a andarem de bicicleta (sem rodinhas). Mas educar dá trabalho. Mais fácil continuarem focadas nos ciclistas profissionais: os ricos investidores pessoa física e institucional.

Por: André Rocha - Valor Investe

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